You are currently viewing Tempo

Tempo

TEMPO
Érica Toledo

Do alto do prédio onde trabalho, avisto um quintal. Uma improvável área verde entre construções comerciais. Quando dou sorte, consigo ver, passeando pela grama, um grande coelho branco, que me lembra de “Alice no país das maravilhas”.

Na história, o Coelho Branco, de relógio no bolso, está sempre atrasado e diz: “É tarde, é tarde, é tarde até que arde”. Ele usa uma roupinha elegante, muito bem composto por fora e desorientado por dentro. Penso que, tantas vezes, tenho andado como ele, com pressa e tensa. Nem me permito olhar a vizinhança pelo vidro por mais do que alguns segundos.

Mas a ficção de Lewis Carroll também oferece uma solução contra a ditadura do tempo e ela é representada pela Lebre de Março. Mais escura que o Coelho e descabelada, ela bebe chá a qualquer hora e faz festa em qualquer dia. Em uma das muitas versões da história, celebra um “desaniversário”, ou seja, a comemoração que transforma, não só o nosso aniversário, mas todos os dias do ano em uma data importante.

A Lebre tem fama de doida, mas será loucura comemorar sem motivo formal? Presentear sem data certa? Reunirmos os amigos para um chá ou qualquer outra farra de carinho e comida gostosa? Será insano fazer como a lebre e mergulhar o relógio na xícara, gastando mais horas com os prazeres do que com os afazeres? Roubando minutos do despertador para amar mais, conviver mais e dar mais sentido pessoal para a rotina? Os ponteiros só marcam números, não medem o tempo das palavras que precisam ser sentidas, ditas e ouvidas.

Seremos atarantados Coelhos Brancos ou subversivas Lebres de Março? A onde nos levará tanta correria? O Coelho Branco serve à Rainha de Copas. E nós? A quem ou a que estamos servindo?

Se, no final das contas, só temos o dia de hoje, parece que loucura mesmo é adiar o tempo da felicidade.

Comentários